Moïse Kabamgabe Dedico esse primeiro texto a você, com profundo amor e reverência ao seu povo. O açoite do Brasil estala contra os seus, machuca e dilacera a carne viva; pulsante. O poder vigente exalta a tortura. Milhões endossaram. Brincaram de arminha, brincaram de odiar e de repetir insanidades virtualmente programadas. Na lógica fascista, o assassinato é norma. Brutal e corriqueiro. Não acaba nunca. O país mata até depois da morte. Viola o corpo, rouba os órgãos, rifa a verdade, descarta a vida. A violência e suas vísceras! O Congo mora em nós, no ritmo da nossa fala e da nossa sintaxe; nas palavras molhadas de chuva, com suas aliterações sublimes, que se espraiam, generosas, nas sílabas. E ressoam. O Congo mora na gramática de nossos tambores, no mel de nossas preces, nas águas ancestrais de nossas gungas. Ao matar Moïse Kabamgabe, matamos nossa humanidade inteira! Servimos, mais uma vez, ao colonialismo perverso de cada dia.
no bule vermelho, o vapor começa a desenhar círculos dentro de círculos numa atmosfera meio simbolista, espirais que envolvem o café arábico e convidam o aroma pra dançar. é só uma manhã de terça-feira, muitos diriam. mas eu amo essas pequeninas magias da simplicidade que me roçam os sentidos e aguçam a vontade de viver. todo e qualquer gesto é um milagre. colocar o café cuidadosamente na caneca de "o gato malhado e a andorinha sinhá" e ajeitar a fatia de queijo sobre a torrada numa cerâmica marajoara acendem o dia. é meu autocuidado, meu dengo, meu alento. as tarefas que me esperam para logo mais não são assim tão fáceis, eu quero, no entanto, me permitir à delícia de olhar para o céu e para os edifícios sinuosos durante o meu caminho; de ouvir o sotaque molhado dessa gente linda: veleiro ao vento, penínsulas, maresia. aqui, na Bahia, todo corpo dança, toda palavra é música. uma ode à estesia!
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