Filha de Ogum e Oyá, feminista, sou escritora e professora. Dois ofícios que se irmanam à partilha, à empatia e à troca de saberes. Acredito na revolução cotidiana da ternura e na potência da língua popular brasileira: múltipla, polissêmica e poética. O caminho é candente, mesmo na travessia das águas. O ciclo de lunação abraça a bruxa ancestral e a encantaria e me (des)orienta. Hilda Hilst é meu mapa; Clarice Lispector, minha bússola.
Moïse Kabamgabe
Moïse Kabamgabe Dedico esse primeiro texto a você, com profundo amor e reverência ao seu povo. O açoite do Brasil estala contra os seus, machuca e dilacera a carne viva; pulsante. O poder vigente exalta a tortura. Milhões endossaram. Brincaram de arminha, brincaram de odiar e de repetir insanidades virtualmente programadas. Na lógica fascista, o assassinato é norma. Brutal e corriqueiro. Não acaba nunca. O país mata até depois da morte. Viola o corpo, rouba os órgãos, rifa a verdade, descarta a vida. A violência e suas vísceras! O Congo mora em nós, no ritmo da nossa fala e da nossa sintaxe; nas palavras molhadas de chuva, com suas aliterações sublimes, que se espraiam, generosas, nas sílabas. E ressoam. O Congo mora na gramática de nossos tambores, no mel de nossas preces, nas águas ancestrais de nossas gungas. Ao matar Moïse Kabamgabe, matamos nossa humanidade inteira! Servimos, mais uma vez, ao colonialismo perverso de cada dia.
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